sábado, 15 de novembro de 2008

Com trema, sem trema... continuamos agüentando

Na verdade, o que pouca gente sabe é que o acordo ortográfico que passa a vigorar em 1º de janeiro de 2009 é um ajuste que tem muito mais interesses econômicos e políticos por trás, do que questões lingüísticas. O mercado brasileiro é muito maior do que o de todos os de outros países de Língua Portuguesa somados (segundo a CBL – Câmara Brasileira do Livro, movimenta 2,4 bilhões de reais/ano, produz 300 milhões de exemplares e mais de 35 mil títulos ano.
Quer razão maior?
Dos aproximadamente 240 milhões de falantes de Língua Portuguesa, nós somos 190 milhões (quase 80%), exportamos música, novela, produtos gerais, serviços aos irmãos de idioma e conseguimos aprovar um acordo que toca em menos de 2% das nossas regras e muito mais que isso nas deles.

O acordo é vantajoso para o Brasil? 
Mais ou menos. O fato de haver ortografias distintas nunca impediu que os livros cruzassem o atlântico (nos dois sentidos). Alegam a necessidade, por exemplo, de se editar o HOUAISS duas vezes por causa das distinções de grafia. Tudo bem, mas além do HOUAISS, que é um dicionário, e, obviamente, precisa ser reeditado nesses casos, qual mais precisa? Acharemos uma meia dúzia de livros que não justificam o empenho hercúleo realizado.

Há interesses políticos.  
O interesse político é que, embora o acordo tenha sido alinhavado em sua parte final em 1995, só entra em vigor agora, com prazo de adaptação de 3 anos, bem no meio do governo Lula que nunca escondeu de ninguém que sonha em ser o líder dos países excluídos, uma espécie de general do exército de Brancaleone. Pois começou bem... Um exemplo aos pobres que se vêem nele, o homem que veio galgando os degraus numa caminhada de superação. Acho louvável. Sem deboche mesmo. Acho sim.
 
Mas enfim, mudou.
Na verdade, fizemos a comunidade lusófona engolir a maioria das regras para se unificar em nome de uma unidade lingüística que, assim como o Godot, de Becket, fica sob uma árvore esperando. Podemos até escrever do mesmo jeito, mas o que nos faz tão distantes, tão distintos não está na grafia das palavras, mas em uma herança cultural que, fora a língua, nos separa por mais de um oceano. E acho que essa diferença é que é o legal da coisa.

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